segunda-feira, 8 de julho de 2013

Dueto - 2ª fuga

     A testa latejava de forma insistente, o sangue quente corria pela face até o gosto de ferro chegar aos lábios, por alguns instantes isso foi tudo que ela podia sentir, até conseguir abrir os olhos e ver embaçadas e ao longe as luzes que piscavam e brilhavam intensamente aumento a dor na cabeça, os sons abafados começaram a ficar cada vez mais audíveis até que ela conseguia claramente distinguir as figuras ao seu redor. O caminhão estava afundado na lateral de outro carro, provavelmente a escolha do motorista para não atropela-la e assim salvar sua vida.
     Ao seu redor começou a ficar um pouco mais escuro e então ela percebeu a massa de pessoas que estavam desviando a atenção do acidente propriamente dito, agora todos estavam olhando para ela, visto que sua consciência estava voltando. Sentiu uma pressão no braço e percebeu que alguém havia acabado de lhe segurar, estava assustada e por mais que se esforçasse ainda não conseguia focar o suficiente para ver mais do que um borrão no rosto dos que estavam a sua volta. Ela tentou correr, mais uma vez isso a salvaria, talvez se conseguisse puxar o braço com força suficiente, talvez as pessoas não fossem atrás dela, talvez o motorista do caminhão e os passageiros do carro estivessem bem, e só talvez, suas pernas poderiam responder... Não foi o que aconteceu, ela puxou e conseguiu se desvencilhar da mão que a segurava, mas ao tentar se levantar sentiu sua perna doer como nunca na vida, então ela teve vontade de chorar, sua alma suplicava por algo que ela não sabia nomear, por um conforto que ela nunca sentira, então tudo se apagou novamente.

     Sua testa não doía mais, e havia pressão por quase todo o seu corpo, quando conseguiu abrir os olhos viu que estava enfaixada e deitada numa maca dentro do que imaginou ser uma ambulância, dois paramédicos conversavam ao seu lado um pouco exaltados, ela não entendia o que o primeiro gritava tanto para o segundo e porque mexiam tanto as mãos, até que ela viu a cena aterrorizante. Um homem de meia idade estava deitado na maca ao seu lado, e era nele que os paramédicos mexiam, estava com tantas ou mais ataduras que ela, porém as dele encharcadas e rubras de tanto sangue, ela nunca viu tanto sangue assim, nem mesmo quando um animal era morto, ela gelou e quase gritou, denunciando assim a todos que estava acordada, mas seu grito foi abafado pelo freio do carro que teve suas portas abertas, os dois médicos correram com o ensanguentado para dentro, praticamente se esquecendo da menina que eles acreditavam ainda estar dormindo. Foi então que ela percebeu que não poderia permanecer ali, tudo acabaria se a internassem no hospital, seria descoberta e tudo que passou não adiantaria de nada, teria que responder pelo acidente, e pior, viriam busca-la certamente.
   Ainda estava um pouco tonta mas conseguiu se levantar, tirou uma agulha estranha que prendia uma borracha pingando um líquido em seu corpo, torceu para não precisar daquilo para se manter viva e com cuidado, certificando-se de que ninguém a veria, passou por trás da ambulância, escondendo-se nas sombras. Só quando saiu da parte coberta que limitava aquele lado do estacionamento percebeu as gotas de chuva tocando-lhe o rosto e agradeceu pela chuva, poucas pessoas andariam na rua naquele horário e com esse tempo, seria mais fácil de procurar um lugar seguro.
   
   Andava tateando os muros, estava tonta, um pouco pelo ferimento na testa, um pouco pela fome, talvez fosse o cansaço, e provavelmente era conjunto de todos esses fatores que estavam mexendo com sua mente e dando-lhe a sensação de perigo, ela estava tentando se manter alerta o máximo possível pois a sensação de perseguição era inevitável. Achou um canto, entre dois contêineres de lixo, a tampa de um deles estava aberta fazendo o "telhado" de seu aposento para aquele final de madrugada, ela se sentou com certa dificuldade, sua perna começava a doer novamente, a ideia era só sentar pra descansar sem deixar de estar alerta, mas os olhos foram ficando pesados e pesados, o que teria demais em fecha-los só por alguns segundos? O frio do vento da madrugada parecia se multiplicar por cem ou bater contra suas roupas molhadas, ela abraçou os joelhos tentando inutilmente se aquecer um segundo, piscar de forma consciente uma única vez foi o suficiente para leva-la novamente pra escuridão.

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